{"id":473,"date":"2026-05-10T05:00:00","date_gmt":"2026-05-10T05:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/?p=473"},"modified":"2026-05-10T20:01:04","modified_gmt":"2026-05-10T20:01:04","slug":"dias-das-maes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/2026\/05\/10\/dias-das-maes\/","title":{"rendered":"DIAS DAS M\u00c3ES"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>ENTRE O C\u00c9U E O CANSA\u00c7O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>SER M\u00c3E AT\u00cdPICA TAMB\u00c9M \u00c9 F\u00c9<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sempre quis ser m\u00e3e. Na igreja, amava pegar beb\u00eas no colo e sonhava em ter tr\u00eas filhos. Trabalhei por alguns anos como t\u00e9cnica em enfermagem em uma maternidade, onde cuidava de rec\u00e9m-nascidos todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Somente aos 42 anos, ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas de engravidar e ap\u00f3s dois abortos espont\u00e2neos, consegui uma nova gesta\u00e7\u00e3o. Sa\u00ed da maternidade j\u00e1 fazendo planos para um pr\u00f3ximo filho. No entanto, pouco tempo depois, descobri que havia entrado na menopausa.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a possibilidade de ampliar minha fam\u00edlia pela ado\u00e7\u00e3o existe no meu cora\u00e7\u00e3o, mas aprendi a descansar essa decis\u00e3o nas m\u00e3os de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou m\u00e3e de uma menina de 11 anos, com S\u00edndrome de Down e autismo n\u00edvel 3 de suporte. Com o passar dos anos, entre idas a terapias e muitas d\u00favidas sobre seu desenvolvimento e comportamento, o diagn\u00f3stico de autismo chegou quando ela tinha seis anos. E n\u00e3o veio apenas um nome, veio um processo, um processo de luto, de revis\u00e3o de expectativas e, ao mesmo tempo, um convite profundo \u00e0 f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser m\u00e3e nunca foi um caminho simples, mas ser m\u00e3e at\u00edpica \u00e9 caminhar por estradas que quase ningu\u00e9m v\u00ea e entende.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um tipo de sil\u00eancio que acompanha essas m\u00e3es, um sil\u00eancio que surge quando o mundo n\u00e3o est\u00e1 preparado para acolher uma crian\u00e7a com s\u00edndrome de Down e autismo n\u00edvel 3 de suporte. Ele aparece nos olhares atravessados, nos julgamentos apressados e, principalmente, na aus\u00eancia de empatia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem v\u00ea de fora enxerga apenas um recorte: uma crian\u00e7a que n\u00e3o fala, que n\u00e3o olha, que n\u00e3o responde, mas quem vive por dentro conhece um universo inteiro de comunica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o cabe nas palavras. Um toque, um gesto, um olhar breve, ali existe um di\u00e1logo profundo, invis\u00edvel para quem nunca precisou aprender outra forma de amar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser m\u00e3e at\u00edpica \u00e9 viver em constante entrega. \u00c9 aprender sobre terapias, crises, est\u00edmulos, rotinas r\u00edgidas e, ao mesmo tempo, lidar com o imprevis\u00edvel todos os dias. \u00c9 carregar no corpo o cansa\u00e7o e, na alma, uma f\u00e9 que precisa ser renovada continuamente.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitos dias dif\u00edceis, dias de exaust\u00e3o, de crises, e de incertezas. Dias em que tudo o que me sustenta \u00e9 a verdade de 2 Cor\u00edntios 12:9: \u201cA minha gra\u00e7a te basta.\u201d E ela basta. Basta no meio do cansa\u00e7o, basta quando as respostas n\u00e3o v\u00eam, basta quando o futuro parece distante e incerto demais.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dias em que crer em Deus n\u00e3o \u00e9 sorrir, \u00e9 simplesmente continuar e \u00e9 justamente a\u00ed que a igreja precisa se tornar mais do que um lugar de culto, precisa ser um lugar de acolhimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Conciliar tudo isso com a vida profissional tamb\u00e9m \u00e9 um desafio constante. Trabalho como psic\u00f3loga cl\u00ednica nas poucas horas em que minha filha est\u00e1 na escola. Muitas vezes preciso reorganizar agendas, lidar com imprevistos e aprender a viver um dia de cada vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma m\u00e3e at\u00edpica n\u00e3o precisa de olhares de pena nem de frases prontas como: \u201cFilho especial, pais especiais\u201d ou \u201cVoc\u00ea foi escolhida por Deus\u201d. Nenhuma m\u00e3e at\u00edpica se sente mais especial do que qualquer outra pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela precisa de uma comunidade que reconhe\u00e7a que seu filho tamb\u00e9m faz parte do corpo de Cristo. Que compreenda que, \u00e0s vezes, o choro no meio do culto n\u00e3o \u00e9 falta de disciplina, \u00e9 uma crise. Que entenda que, sair antes do final do culto n\u00e3o \u00e9 desinteresse, \u00e9 sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A maternidade at\u00edpica nos transforma de maneira \u00fanica. Ela nos ensina a celebrar o que para muitos passaria despercebida.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprendi a comemorar pequenos avan\u00e7os como verdadeiros milagres: um gesto novo, um olhar mais atento, uma conquista que pode parecer simples para outros, mas que carrega meses, \u00e0s vezes anos de dedica\u00e7\u00e3o, cuidado e ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 algo que essa jornada tem produzido em mim, \u00e9 uma f\u00e9 mais concreta. Menos baseada em respostas prontas e mais firmada na presen\u00e7a de Deus no cotidiano. Uma f\u00e9 que se sustenta, muitas vezes, n\u00e3o porque tudo faz sentido, mas porque sei em quem tenho crido.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tamb\u00e9m me levou a refletir sobre o papel da igreja. O corpo de Cristo \u00e9 chamado a viver em unidade e mutualidade (1 Cor\u00edntios 12). Se \u201cum membro sofre, todos sofrem com ele\u201d, ent\u00e3o a maternidade at\u00edpica n\u00e3o deve ser vivida em isolamento.<\/p>\n\n\n\n<p>A igreja \u00e9 chamada a ser suporte vis\u00edvel: acolhendo crian\u00e7as que n\u00e3o se encaixam em padr\u00f5es tradicionais, oferecendo ajuda concreta \u00e0s fam\u00edlias, exercendo paci\u00eancia, gra\u00e7a e amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a m\u00e3e at\u00edpica, a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 te\u00f3rica, ela \u00e9 vivida no ch\u00e3o da vida. \u00c9 confiar em Deus quando o futuro \u00e9 incerto. \u00c9 crer que Ele continua sendo bom, mesmo quando os caminhos s\u00e3o dif\u00edceis. \u00c9 aprender, dia ap\u00f3s dia, que o valor da vida n\u00e3o est\u00e1 na produtividade, na independ\u00eancia ou na performance, mas no fato de sermos profundamente amados por Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste Dia das M\u00e3es, fa\u00e7o um convite \u00e0 igreja: olhe com mais sensibilidade para as m\u00e3es at\u00edpicas. Por tr\u00e1s de cada uma h\u00e1 uma hist\u00f3ria de amor, ren\u00fancia, perseveran\u00e7a e f\u00e9 sendo constru\u00edda diariamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos de acolhimento, de apoio pr\u00e1tico, de espa\u00e7os onde nossos filhos sejam recebidos com gra\u00e7a e onde n\u00f3s tamb\u00e9m possamos descansar.<\/p>\n\n\n\n<p>E que n\u00f3s, m\u00e3es at\u00edpicas, encontremos descanso na promessa de que o Senhor n\u00e3o apenas v\u00ea, mas sustenta, fortalece e caminha conosco em cada detalhe dessa jornada.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus nunca exigiu que as pessoas fossem \u201cadequadas\u201d para serem acolhidas. Pelo contr\u00e1rio, Ele se aproximava justamente daqueles que eram vistos como diferentes, dif\u00edceis, exclu\u00eddos. Ser m\u00e3e at\u00edpica \u00e9, de certa forma, viver esse evangelho todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma crian\u00e7a nasce por acaso. Nenhuma hist\u00f3ria escapa ao olhar de Deus. Talvez o maior desafio n\u00e3o seja a defici\u00eancia, mas a falta de sensibilidade ao redor. Por isso, a igreja \u00e9 chamada a ser resposta. A ser abrigo. A ser extens\u00e3o concreta do amor de Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Porque, no fim, ser m\u00e3e at\u00edpica tamb\u00e9m \u00e9:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Viver entre o c\u00e9u e o cansa\u00e7o;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Entre a dor e o milagre di\u00e1rio;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Entre a l\u00e1grima e a f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>E, mesmo quando ningu\u00e9m v\u00ea, Deus v\u00ea. E Ele permanece.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CLAUDIA FILGUEIRA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>M<strong>\u00e3e at\u00edpica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ENTRE O C\u00c9U E O CANSA\u00c7O SER M\u00c3E AT\u00cdPICA TAMB\u00c9M \u00c9 F\u00c9 Sempre quis ser m\u00e3e. Na igreja, amava pegar beb\u00eas no colo e sonhava em<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":474,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"pagelayer_contact_templates":[],"_pagelayer_content":"","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-473","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-editoriais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/473","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=473"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/473\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":475,"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/473\/revisions\/475"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/474"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=473"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=473"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ibidentidade.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=473"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}