maio 10, 2026

DIAS DAS MÃES

ENTRE O CÉU E O CANSAÇO SER MÃE ATÍPICA TAMBÉM É FÉ Sempre quis ser mãe. Na igreja, amava pegar bebês no colo e sonhava em […]

ENTRE O CÉU E O CANSAÇO

SER MÃE ATÍPICA TAMBÉM É FÉ

Sempre quis ser mãe. Na igreja, amava pegar bebês no colo e sonhava em ter três filhos. Trabalhei por alguns anos como técnica em enfermagem em uma maternidade, onde cuidava de recém-nascidos todos os dias.

Somente aos 42 anos, após várias tentativas de engravidar e após dois abortos espontâneos, consegui uma nova gestação. Saí da maternidade já fazendo planos para um próximo filho. No entanto, pouco tempo depois, descobri que havia entrado na menopausa.

Hoje, a possibilidade de ampliar minha família pela adoção existe no meu coração, mas aprendi a descansar essa decisão nas mãos de Deus.

Sou mãe de uma menina de 11 anos, com Síndrome de Down e autismo nível 3 de suporte. Com o passar dos anos, entre idas a terapias e muitas dúvidas sobre seu desenvolvimento e comportamento, o diagnóstico de autismo chegou quando ela tinha seis anos. E não veio apenas um nome, veio um processo, um processo de luto, de revisão de expectativas e, ao mesmo tempo, um convite profundo à fé.

Ser mãe nunca foi um caminho simples, mas ser mãe atípica é caminhar por estradas que quase ninguém vê e entende.

Há um tipo de silêncio que acompanha essas mães, um silêncio que surge quando o mundo não está preparado para acolher uma criança com síndrome de Down e autismo nível 3 de suporte. Ele aparece nos olhares atravessados, nos julgamentos apressados e, principalmente, na ausência de empatia.

Quem vê de fora enxerga apenas um recorte: uma criança que não fala, que não olha, que não responde, mas quem vive por dentro conhece um universo inteiro de comunicação que não cabe nas palavras. Um toque, um gesto, um olhar breve, ali existe um diálogo profundo, invisível para quem nunca precisou aprender outra forma de amar.

Ser mãe atípica é viver em constante entrega. É aprender sobre terapias, crises, estímulos, rotinas rígidas e, ao mesmo tempo, lidar com o imprevisível todos os dias. É carregar no corpo o cansaço e, na alma, uma fé que precisa ser renovada continuamente.

Há muitos dias difíceis, dias de exaustão, de crises, e de incertezas. Dias em que tudo o que me sustenta é a verdade de 2 Coríntios 12:9: “A minha graça te basta.” E ela basta. Basta no meio do cansaço, basta quando as respostas não vêm, basta quando o futuro parece distante e incerto demais.

Há dias em que crer em Deus não é sorrir, é simplesmente continuar e é justamente aí que a igreja precisa se tornar mais do que um lugar de culto, precisa ser um lugar de acolhimento.

Conciliar tudo isso com a vida profissional também é um desafio constante. Trabalho como psicóloga clínica nas poucas horas em que minha filha está na escola. Muitas vezes preciso reorganizar agendas, lidar com imprevistos e aprender a viver um dia de cada vez.

Uma mãe atípica não precisa de olhares de pena nem de frases prontas como: “Filho especial, pais especiais” ou “Você foi escolhida por Deus”. Nenhuma mãe atípica se sente mais especial do que qualquer outra pessoa.

Ela precisa de uma comunidade que reconheça que seu filho também faz parte do corpo de Cristo. Que compreenda que, às vezes, o choro no meio do culto não é falta de disciplina, é uma crise. Que entenda que, sair antes do final do culto não é desinteresse, é sobrevivência.

A maternidade atípica nos transforma de maneira única. Ela nos ensina a celebrar o que para muitos passaria despercebida.

Aprendi a comemorar pequenos avanços como verdadeiros milagres: um gesto novo, um olhar mais atento, uma conquista que pode parecer simples para outros, mas que carrega meses, às vezes anos de dedicação, cuidado e oração.

Se há algo que essa jornada tem produzido em mim, é uma fé mais concreta. Menos baseada em respostas prontas e mais firmada na presença de Deus no cotidiano. Uma fé que se sustenta, muitas vezes, não porque tudo faz sentido, mas porque sei em quem tenho crido.

Isso também me levou a refletir sobre o papel da igreja. O corpo de Cristo é chamado a viver em unidade e mutualidade (1 Coríntios 12). Se “um membro sofre, todos sofrem com ele”, então a maternidade atípica não deve ser vivida em isolamento.

A igreja é chamada a ser suporte visível: acolhendo crianças que não se encaixam em padrões tradicionais, oferecendo ajuda concreta às famílias, exercendo paciência, graça e amor.

Para a mãe atípica, a fé não é teórica, ela é vivida no chão da vida. É confiar em Deus quando o futuro é incerto. É crer que Ele continua sendo bom, mesmo quando os caminhos são difíceis. É aprender, dia após dia, que o valor da vida não está na produtividade, na independência ou na performance, mas no fato de sermos profundamente amados por Deus.

Neste Dia das Mães, faço um convite à igreja: olhe com mais sensibilidade para as mães atípicas. Por trás de cada uma há uma história de amor, renúncia, perseverança e fé sendo construída diariamente.

Precisamos de acolhimento, de apoio prático, de espaços onde nossos filhos sejam recebidos com graça e onde nós também possamos descansar.

E que nós, mães atípicas, encontremos descanso na promessa de que o Senhor não apenas vê, mas sustenta, fortalece e caminha conosco em cada detalhe dessa jornada.

Jesus nunca exigiu que as pessoas fossem “adequadas” para serem acolhidas. Pelo contrário, Ele se aproximava justamente daqueles que eram vistos como diferentes, difíceis, excluídos. Ser mãe atípica é, de certa forma, viver esse evangelho todos os dias.

Nenhuma criança nasce por acaso. Nenhuma história escapa ao olhar de Deus. Talvez o maior desafio não seja a deficiência, mas a falta de sensibilidade ao redor. Por isso, a igreja é chamada a ser resposta. A ser abrigo. A ser extensão concreta do amor de Cristo.

Porque, no fim, ser mãe atípica também é:

– Viver entre o céu e o cansaço;

– Entre a dor e o milagre diário;

– Entre a lágrima e a fé.

E, mesmo quando ninguém vê, Deus vê. E Ele permanece.

CLAUDIA FILGUEIRA

Mãe atípica